As cores do mundo de Amélie Poulain

8 de junho de 2020
O filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é uma das peças mais interessantes do cinema contemporâneo, devido a uma história muito bem contada e a uma estética com a qual não estávamos acostumados, usando as cores de uma maneira magistral.

O diretor e roteirista Jean-Pierre Jeunet nos surpreendeu em 2001 com O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, que se destaca pela tonalidade das cores usadas para contar a história da jovem. Filme romântico, originalmente escrito para ser interpretado por Emily Watson; porém, a atriz inglesa recusou o convite por causa da sua dificuldade com o francês.

Com dificuldade para encontrar uma nova intérprete, Jean-Pierre Jeunet deu o papel de Amélie a Audrey Tautou. Esta atriz francesa acabou por ser uma protagonista fantástica, alcançando uma performance magistral no filme.

O filme

O filme

Paleta cromática / culturainquieta.com

O filme gira em torno da vida de Amélie Poulain, a qual é contada por um narrador onipresente. Amélie é uma mulher peculiar, com um destino fabuloso, marcado por várias circunstâncias que são explicadas durante o filme.

Seu pai, médico de profissão e de caráter muito frio, está totalmente convencido de que a menina sofre de um problema cardíaco. Mas, esse problema cardíaco é o resultado da aceleração do seu coração toda vez que ela é tocada pelo pai.

Devido a essa situação, ele decide que Amélie deve ser educada em casa pela mãe, professora de profissão e hipocondríaca. Infelizmente, a mãe de Amélie morre de uma forma terrível. Ela é esmagada por uma mulher suicida em Notre Dame.

Esse evento deixa o seu pai ainda mais retraído, fazendo com que ele se limite aos cuidados do pequeno mausoléu de sua esposa no jardim. Isolada do mundo e sem contato social, a pequena Amélie cultiva a sua imaginação. Isso a leva a desenvolver um curioso interesse pelos pequenos detalhes e prazeres da vida.

Maioridade

Quando atinge a maioridade, Amélie deixa a casa dos pais. O seu mundo é transportado para o seu pequeno e velho apartamento, cercado por personagens únicos. Madeleine, a porteira, o quitandeiro Collignon e a sua assistente Lucien, o mendigo cego que vagueia do metrô até o café.

Mas o seu vizinho favorito, por quem ela tem um carinho especial, é Raymond Dufayel, pintor e apaixonado pelo quadro de Renoir “O almoço dos barqueiros“. Este vizinho tem uma doença rara, que lhe valeu o apelido de “o homem de cristal”.

Amélie trabalha no Café des Deux Moulins juntamente com Suzanne, a proprietária, Georgette, a vendedora de cigarros hipocondríaca e Gina, sua colega garçonete. Por sua vez, os clientes que frequentam o café também são únicos.

Amélie, a executora do bem

As cores do mundo de Amélie Poulain

Cores / culturainquieta.com

Amélie tenta ajudar outras pessoas a consertarem as suas vidas sem ser notada, mas isso não parece ser o suficiente. Parece que, no fundo, podemos encontrar em Amélie uma falta de compromisso com a sua própria vida.

Ao longo do filme, podemos encontrar referências a muitos artistas e movimentos, às vezes diretamente em cena (quando há pinturas penduradas no quarto de Amélie ou na pintura de Renoir), ou em outras múltiplas pistas que fazem referência a obras ou estilos icônicos.

As cores de Amélie Poulain

As cores do mundo de Amélie Poulain

Cores / colorpalette.cinema

De forma geral, este é um filme muito expressivo, tanto esteticamente quanto no enredo, incluindo uma trilha sonora fascinante. Destaca-se a seleção estratégica da paleta de cores implementada pelo diretor Jeunet.

De acordo com o próprio diretor, ele se inspirou no pintor brasileiro Juarez MachadoAs cores que mais podemos encontrar no filme são vermelho, verde e azul. Cada uma delas foi usada para demonstrar emoções específicas dos personagens. Em diversas entrevistas, o diretor Jeunet confessou que queria que cada cena fosse uma pintura, um quadro para ser lembrado.

As emoções podem ser classificadas de acordo com as diferentes cores que aparecem durante o filme. O vermelho é um símbolo do temperamento caloroso e amoroso da pequena e doce Amélie.

O apartamento de Amélie tem tons vermelhos e as suas roupas transitam entre combinações com essa cor. Além disso, podemos ver toques de vermelho na cabine telefônica onde somos apresentados a Nino, o amado de Amélie, ou no chapéu de gnomo do pai de Amélie.

O verde é usado como contraste ao vermelho em diversas cenas ao longo da história. Amélie combina os seus vestidos vermelhos com outros verdes. A cabine telefônica vermelha onde encontramos Nino contrasta com o ambiente verde do metrô de Paris.

Os tons de azul mostram o lado triste e solitário de Amélie, que sempre foi tímida e solitária, procurando o amor. Entre os objetos de Amélie, encontramos um pequeno abajur azul em forma de cogumelo. Além disso, em algumas cenas, Amélie e Nino usam cartazes azuis para se comunicarem.

As cores de Amélie Poulain: luz e fotografia  

As cores do mundo de Amélie Poulain

Cena Amélie / colorpalette.cinema

Também devemos mencionar o excelente trabalho do diretor de fotografia, Bruno Delbonnel. Com o uso de lentes grandes angulares, ele tenta mostrar a solidão e o isolamento emocional de Amélie. Os movimentos da câmera também se destacam, com travellings que terminam com uma aproximação ao rosto do personagem.

Em relação à iluminação, ela é tênue e amarelada, mesmo em cenas gravadas durante o dia. Assim, há a impressão de que elas foram filmadas no final da tarde.

Há um uso muito pontual de efeitos especiais para mostrar a imaginação ou sugerir sentimentos ou pensamentos do personagem.

Em conclusão, podemos dizer que o diretor Jean-Pierre Jeunet tentou nos mostrar o lado mais romântico e maravilhoso de Paris através dessas cores, as cores de Amélie Poulain.

É realmente impressionante ver como Jeunet usou a organização e a distribuição de elementos como luz e cor para revelar as emoções do mundo de Amélie.